Desdobrando e entendendo o Atlas Solar do RS

Desdobrando e entendendo o Atlas Solar do RS

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Nessa última semana uma notícia empolgou o setor de energia solar no Rio Grande do Sul. O lançamento do Atlas Solar do RS – um grande estudo sobre as condições de geração de energia solar no estado – é um marco de profissionalismo e de reconhecimento do governo do estado para um setor que cresce em níveis absurdos e tem aqui no Rio Grande do Sul um expoente fantástico.

Não vou me deter aqui nesse texto a falar sobre a metodologia utilizada para a obtenção das irradiações, por que tenho certeza que a qualidade das informações são ótimas, de estações físicas espalhadas por todo o RS e com uma grande janela de observação. Isso sem dúvida dará respaldo aos projetos de geração distribuída e quem sabe num futuro aos projetos Utility Scale. O Rio Grande do Sul termina 2018 com mais de 5000 conexões de geração distribuída, e a projeção para 2019 é que esse número dobre. Esses números por si só justificam a elaboração desse estudo.

Como é o panorama solar no estado do RS?

O Atlas Solar RS nos mostra que o panorama energético do estado do RS é muito semelhante em diversas regiões. No entanto, temos variações significativas em algumas outras regiões. Dom Pedrito, por exemplo, é a cidade gaúcha que apresenta o maior índice de radiação e Camaquã é a pior. A diferença entre os dois cenários é de 17%.

Os valores disponibilizados no Atlas são valores no plano horizontal. Isso sem dúvida tem que ser bem avaliado pelos projetistas, por que ao projetarmos sistemas fotovoltaicos temos inclinações e orientações diversas. Nesse caso é importante que se faça um desdobramento da irradiação no plano do módulo fotovoltaico e essa decomposição exige um algoritmo de desdobramento.

No entanto, temos softwares gratuitos como o Radiasol2 da UFRGS que decompõe a irradiação. Sua base de dados é do SWERA e o melhor a se fazer portanto é desenvolver um cálculo com os dados disponibilizados no Atlas, já que a tendência forte desses dados serem mais confiáveis que os dados do SWERA.

O desempenho dos sistemas fotovoltaicos no RS

Um dos trabalhos que mais temos dedicado tempo aqui na HCC Engenharia é o de avaliação de desempenho de sistemas fotovoltaicos. O que podemos perceber é que a incerteza do recurso solar é um dos pontos mais críticos de projeto. Embora tenhamos fontes de informações com um bom nível de confiança, a imprevisibilidade do recurso é muito grande.

Por que aqui no RS a imprevisibilidade do recurso solar é tão presente? Bom, na minha opinião temos cenários climáticos muito distintos, como pode ser visto na figura abaixo, retirada do próprio Atlas Solar. Temos variações de mais de 100% entre uma estação e outra. Além disso, os ciclos de chuvas aqui no RS estão muito associados aos fenômenos El Niño e La Niña, isso é relevante na determinação das chuvas e consequentemente a radiação solar.

O ano de 2018, por exemplo, teve um inverno muito chuvoso e com bastante nebulosidade, a ponto de termos índices de radiação solar 30% inferior à media histórica do banco de dados do SWERA, isso sem dúvida causou um impacto muito grande na geração solar e consequentemente desalinhou o ciclo anual de geração. Na maioria dos casos que acompanhei os créditos normalmente juntados no período de verão não foram suficientes para compensar a energia consumida nesse “período sombrio”.

Esse impacto foi sentido pelos bancos de dados dos softwares de projeto. O ISOLERGO um dos softwares que utilizamos aqui na empresa, baixou os níveis de radiação solar no inverno em até 5%, isso demonstra o quanto foi impactante esse inverno dentro do histórico. O fato é que com o Atlas Solar RS esse tipo de incerteza tende a ser diminuída, haja visto que o banco de dados é mais robusto e com muitas estações físicas.

Fiz uma comparação entre os dados do atlas solar do RS e o Atlas Solar do Brasil, para avaliar:

A diferença média foi de 3,6% no geral dos municípios, ou seja, a radiação solar do Atlas do RS está em média superior aos dados do Atlas do Brasil. Num primeiro momento o sentimento é de alegria, já que o potencial energético do RS é maior do que estávamos buscando em outras fontes de dados. No entanto, confesso que fico com o pé atrás em adotar esse novo padrão em nossos projetos, já que foi constatado em 2018 dados reais bem abaixo dos padrões. Caso o projetista resolva adotar em seus projetos os dados da radiação do atlas solar do RS, sugiro que faça uma profunda análise dos fatores que podem alterar o Performance Ratio do projeto. Isso terá que ser muito bem analisado para que não ocorra uma super estimativa da geração.

De maneira resumida o Atlas traz segurança para os investidores e também para os projetistas. A incerteza do recurso solar é sem dúvida um dos grandes obstáculos para a correta previsibilidade da geração solar distribuída. Acredito que com dados confiáveis, de estações físicas em varias regiões, vai trazer clareza para todo o mercado, sem dúvida uma grande conquista para todos que amam a energia mais democrática do mundo, energia solar.

Gostou de saber mais sobre energia solar no Rio Grande do Sul? Se você quer saber ainda mais, acesse outro texto do nosso blog, que fala sobre o potencial de irradiância do nosso estado. Acesse aqui!